Quando o tucano Aécio Neves foi ultrapassado por Marina Silva (PSB) na
corrida presidencial, em agosto, sua irmã Andrea Neves fez um
diagnóstico certeiro: "Ou a gente traz Marina para o debate terreno, ou
ela vai continuar colhendo desde o voto dos evangélicos até o dos black
blocs".
Dias depois, com o irmão desacreditado por aparecer bem atrás de Marina e
da presidente Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas, Andrea foi enviada a
Minas Gerais com a dupla missão de salvar a campanha do candidato que
Aécio indicara para disputar o governo estadual, Pimenta da Veiga, e
estancar a perda de votos do tucano em seu principal reduto eleitoral.
Passou a comandar pessoalmente a propaganda estadual, mas a mudança de
tom não impediu a derrota de Pimenta. Aécio, entretanto, recuperou boa
parte dos votos que perdera no Estado. Embora Dilma tenha chegado na
frente, os pontos que conseguiu de volta em Minas foram importantes para
sua passagem ao segundo turno.
Karime Xavier/Folhapress
Irmã mais velha do presidenciável, Andrea ocupa papel central em sua
trajetória política,
mas recusa protagonismo na ida de Aécio à reta
final da eleição. "Se há um responsável por isso é o Aécio", disse à
Folha. "Ele teve cabeça fria o tempo todo. Foi isso que segurou tudo."
Nos anos em que ele governou Minas Gerais, de 2003 a 2010, Andrea cuidou
pessoalmente da imagem do irmão e de sua administração, assumindo o
comando da área de comunicação em um grupo criado para mediar as
relações com a imprensa.
Na campanha deste ano, segue de perto tudo que os marqueteiros fazem.
Ajuda a interpretar pesquisas, dá palpite nos programas de televisão e
acompanha o trabalho da equipe na ilha de edição. "É o que eu sei
fazer", diz.
O estilo recluso –ela é avessa a entrevistas e bastante tímida– estimula
especulações no mundo político sobre qual a dimensão da influência que
exerce sobre Aécio. Andrea diz que seu trabalho se restringe à
comunicação (ela é jornalista) e que é Aécio quem define tudo no fim das
contas. "Ele é um animal político. O instinto sempre prevalece",
avalia.
Ela não gosta de reuniões políticas nem participa de negociações com
aliados. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, fiador da
candidatura de Aécio, por exemplo, não conhece Andrea.
O senador Aloysio Nunes (SP), vice de Aécio, topou com ela por acaso.
"Só a conheci este ano, depois de já estar na chapa, entrando no
elevador do Senado", conta.
A atuação no governo mineiro colocou Andrea em rota de colisão com os
opositores de Aécio, que a acusam de ter praticado censura ao pressionar
veículos de comunicação para que não publicassem reportagens
desfavoráveis ao irmão.
'ALVO FÁCIL'
Documentários disponíveis na internet reúnem depoimentos de jornalistas
que dizem ter sido demitidos após ela se queixar a seus chefes.
Aliados de Andrea produziram um outro filme, em alguns desses
jornalistas negam o depoimento e dizem que as falas foram editadas.
Ela rejeita qualquer interferência e diz que foi usada para ataques ao irmão.
"A oposição demorou a encontrar um discurso contra o Aécio", inicia.
"Iam dizer que o governo era ruim? Não era. Que tinha corrupção? Não
tinha. Aí me descobriram. Fui a saída preguiçosa. Virei a desculpa para o
fato de que eles não conseguiam produzir uma agenda crítica. Diziam: o
governo é ruim, mas você não sabe porque a Andrea censura a imprensa.'"
Ela também sofre críticas pelo modo como trabalha. Seus detratores dizem
que Andrea injeta tensão no ambiente de trabalho e, às vezes, conduz
decisões polêmicas.
Em julho, quando a Folha revelou que o tucano construíra como governador
um aeroporto numa área desapropriada na fazenda de um tio em Cláudio
(MG), sua equipe se dividiu sobre a melhor maneira de reagir.
Uns queriam que o candidato admitisse o quanto antes que havia pousado
na pista. Andrea achava que era desnecessário. Aécio demorou dez dias
para reconhecer que usara o aeroporto.
No debate interno, Andrea defendeu sua posição: disse que petistas
graúdos usaram pistas não homologadas em Minas ao menos cinco vezes e
que ninguém falava disso.
A irmã de Aécio acabou não participando da preparação do tucano para o
último debate do primeiro turno. Foi encarregada de resolver um problema
de última hora na divulgação do programa de governo. Supersticiosa, não
assiste aos debates ao vivo. Prefere deixar para ver depois que tudo já
passou.
Ela conhece a fama de durona, que rejeita adotando justificativa
parecida com a que a presidente Dilma usa para se defender de críticas
semelhantes. "Só falam isso porque sou mulher", diz. "Um homem fazendo o
que eu faço não teria problema."
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