terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Uma nuvem no meio do caminho

Astrônomos amadores descobriram estranhas nuvens em Marte, muito mais altas que as que costumam aparecer no planeta vermelho. Sua natureza até agora é desconhecida e intriga os cientistas.

Imagens revelam estranhas plumas a 250 km de altitude no planeta vermelho. Mistéééério.
Imagens revelam estranhas plumas a 250 km de altitude no planeta vermelho. Mistéééério.

O achado, publicado online ontem pela revista científica britânica “Nature”, mostra duas coisas importantes: uma é que os mistérios marcianos parecem não se esgotar nunca. Outra é que a astronomia amadora continua a ter um papel na linha de frente da ciência.

Marte é monitorado com atenção ao telescópio por centenas de anos. Contudo, ninguém havia visto nada parecido com o que diversos astrônomos amadores observaram em março de 2012. Eles notaram uma protuberância no limbo do planeta (a borda visível dele), algo como uma nuvem bem distante da superfície marciana.

O fenômeno só era perceptível desse ângulo. Não conseguiram notá-lo nem do outro lado do limbo, depois que o planeta dava meia volta em torno de si, nem quando a região sobre a qual a nuvem se projetava estava de frente para o telescópio — no caso, a área conhecida como Terra Cimmeria. Contudo, após uma volta completa do planeta, lá estava a nuvem novamente. Ela durou por vários dias, sumiu, e algo parecido voltou a ser observado em abril, durante outros dez dias.

EM BUSCA DE RESPOSTAS

Baseando-se nas observações feitas pelos amadores, a equipe de Agustin Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, em Bilbao, na Espanha, passou a investigar o caso. 

Escarafuncharam antigas imagens feitas em observatórios profissionais, assim como em sondas enviadas a Marte, mas não tiveram sucesso em ver outras instâncias do fenômeno — salvo numa sequência de imagens do Telescópio Espacial Hubble obtida em 17 de maio de 1997.

Pela análise das imagens das ocorrências de 2012, Sánchez-Lavega e seus colegas concluíram que as estranhas nuvens aparecem a uma altitude de 200 a 250 quilômetros e passam por mudanças que as fazem desaparecer conforme transitam pelo lado não-iluminado do planeta, para depois voltar a se formar sob a luz do Sol.

A altitude é completamente inesperada. Para que se tenha uma ideia, 250 km não é muito diferente da órbita adotada pela Estação Espacial Internacional (que em sua aproximação máxima da Terra fica a 330 km do chão). Os pesquisadores testaram diversos modelos baseados em partículas de gelo de dióxido de carbono ou de água, e eles poderiam explicar o fenômeno (poeira não faria o mesmo serviço). Alternativamente, poderíamos estar vendo algum fenômeno ligado a auroras — há uma anomalia magnética forte naquela região do planeta.

Contudo, ambas as explicações não casam com o que sabemos da atmosfera superior marciana. Algo está fora da ordem. Agora é hora de os cientistas quebrarem a cabeça para compreender o que estão vendo.

Talvez para alguns isso soe frustrante — depois de décadas de exploração na superfície e na órbita de Marte, ainda somos surpreendidos por fenômenos desconhecidos que podem ser vistos do quintal de casa com um telescópio. Onde fica a tão badalada competência científica nessa hora?

Para o Mensageiro Sideral, é justamente o contrário. A ciência não é só a busca por respostas. É também a busca por novas perguntas. No que diz respeito a Marte, estamos com sorte: acabamos de encontrar mais uma.


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